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Este texto é de Paulo Mendes Campos.
Tão sábio que eu decidi dividir com vocês:
Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor`.
Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.”
24 de Maio de 2010 às 09:32
Claudia Cotes
Terça-feira à noite conheci o Luiz, cantor talentoso que tem 1 irmão e 2 irmãs, cegos.
Contei pra ele, toda a minha história de vida e da ONG.
Eu estava junto com a Turma do Bem, que já mora no meu coração, em um lugar BEM seguro.
O Luiz cantou, falou do amor dele pela música, sonhamos, viajamos em nossos pensamentos artísticos…
Eu me senti amiga do Vinícius de Moraes, em rodas de conversa, com gente interessante, bem-humorada, feliz.
Por um momento, pra mim, o tempo parou. E foi TÃO BOM!
Na quarta, recebo a notícia que a Sara Bentes, cantora cega da ONG Vez da Voz poderia estar com descolamento de retina.
Ela foi às pressas para o Rio de Janeiro.
E vivi a Vida como ela é.
E chorei, fiquei triste, in-con-for-ma-da…
Por que a Sara?
Como pessoas tão boas podem passar por tanto sofrimento?
E me descobri uma beata rezadeira.
Rezava pela Sara a todo momento, pedia aos céus que ela fosse protegida.
Não iria conseguir ser feliz se ela tivesse que retirar o outro olho, em uma cirurgia.
Ontem, estava andando pela rua, e entrei numa igreja.
Era a hora da comunhão. Havia uma missa.
De novo: chorei, pedi, implorei.
A fé renova a Alma, não importa a religião.
À noite, liguei pra Sara.
Estava com muito medo de ouvir…
Ela me disse que estava tudo bem. Foi só um susto.
UFA! Que alívio…
E no meio disso tudo, ela ainda compôs uma música!
Música para o projeto: VEZ DO BEM.
Vem cá meu bem.
Sara, hoje eu vou poder cantar pra vc:
- Quero a vida sempre assim, com você perto de mim…
14 de Maio de 2010 às 08:53
Claudia Cotes
Faz um tempão que eu não passo por aqui…
Desculpem-me.
A correria do dia-a-dia faz a gente deixar de viver momentos importantes, como este, onde me encontro com a escrita!
Tanta coisa aconteceu!
Agradeço todos os dias aos céus porque os projetos da ONG me fazem Cidadã do Mundo…
E trazem pessoas maravilhosas.
No final do ano passado, fui finalista do Prêmio Folha de SP.
Conheci pessoas ÚNICAS! Projetos maravilhosos.
E eu… tão pequena no meio daquela gente GRANDE.
ONGs prósperas, com contatos no exterior.
A Vez da Voz… sem patrocínio, lutando com o suór e garra dos amores de muita gente.
Como eu poderia ganhar?
Sem chance, pensei.
Foi neste dia que eu conheci o projeto da Turma do Bem. E vi a foto de um homem careca, bem simpático. A cara do Gandhi em sua versão chique e moderna. Fábio Bibancos.
Fiquei encantada com o projeto…
Lembrei-me das aulas que tive com o Marcelo Tas.
E pensei:
- Os carecas brasileiros são geniais.
No final do prêmio, uma voz soprou no meu ouvido:
- O Bibancos quer te conhecer. Adorou o projeto.
Procurei, procurei e nada.
Tivemos uma reunião com um grupo de Empreendedores da Folha e lá estava ele.
Sabe um cara que fala NA LATA o que precisa ser dito?
Peguei as palavras dele como um mantra e repeti pra minha equipe.
E repetia pra mim mesma.
Descobri que moro bem pertinho do local onde acontece o projeto.
Um dia, o Léo, que trabalha com ele, me escreveu.
Que alegria!
Fui até eles com a Sara e com o Fabiano. Tinha que filmar…
Poderia ser a única vez na vida. Sei lá.
E ele me questinou sobre o que eu queria. E disse:
- o que você quer é muito poooouco. Eu quero MUITO mais.
Nossa! Isto foi música para os meus ouvidos.
Filmamos. Tirei foto deles com o meu grupo amado. Fizemos parceria. Fomos nós mesmos, na nossa essência e na nossa Alma.
Fui dormir e na madrugada, acordei de repente.
E me veio…
VEZ DO BEM
Da união entre as ONGs Vez da Voz e Turma do Bem.
E perdi o sono.
Que nome divino, não?
Ajudaremos milhares de profissionais e pessoas com deficiência.
Mais dignidade, mais carinho, mais vínculos formados, mais… vem cá meu bem.
Onde chegaremos?
Quando vamos parar?
Espero que estas perguntas tenham só uma resposta:
INFINITO.
7 de Maio de 2010 às 20:27
Claudia Cotes
Esta semana fui a um evento sobre internet, que dizia ser inclusivo.
De novo, os surdos ficaram de fora…
As pessoas pensam em acessibilidade para cegos, letras diferentes, cores, assuntos diferentes, etc.
Mas se esquecem que a maioria dos surdos prefere usar a Libras e para isto, precisam de vídeos nos sites!!!
Conversei com a responsável por uma rádio de SP e perguntei se ela já tinha pensado no fato de que os surdos são totalmente excluídos dos conteúdos sonoros, mas que isto poderia mudar. Basta transformar os arquivos de áudio em vídeos com Libras e colocar na Internet!
Pronto.
Assim nasce a Rádio em Libras.
Que coisa linda… e simples de se fazer.
Pela primeira vez no país, os surdos vão poder entender o que se passa no rádio.
Hoje, pleno domingão de chuva, chamei o meu amigo intérprete de Libras e já colocamos a mão na massa, ou seja, gravamos conteúdos de rádios - em Libras.
Devo editar este material em breve. E sinceramente, espero estar escrevendo nestas linhas, uma NOVA HISTÓRIA, onde as barreiras da comunicação serão completamente quebradas.
E todos seremos iguais, surdos e ouvintes.
Se depender de mim e da minha equipe, esta realidade inclusiva e INÉDITA começou hoje…
28 de Fevereiro de 2010 às 23:13
Claudia Cotes
Quero escrever sobre o quanto a diversidade humana dos meus amigos faz bem para a minha vida e alimenta a minha alma.
Há dois meses estou com o pé quebrado e uso muletas e cadeira de rodas. Vivi no último mês, alguns sentimentos de raiva, desânimo e frustração. Fiquei pensando em como os meus amigos cadeirantes são evoluídos por terem um ótimo humor sempre!
Ter que adaptar a rapidez da minha mente com a lerdeza do meu corpo tem sido uma atividade árdua do dia-a-dia.
E como é difícil lidar com vozes e olhares que me transmitem que eu penso menos ou que eu sou menos por estar com mobilidade reduzida…
Meu corpo está cansado de tanto pular. Até meus dentes fazem pressão uns contra os outros durante a noite.
Mas quando vejo as fotos dos meus amigos, tão diferentes nas raças e nas deficiências, meu coração se acalma e me sinto bem.
Tenho saudades da convivência, dos olhares compreensivos e das risadas sinceras.
O mundo das pessoas com deficiência, o convívio com estes meus amigos é único e à parte.
São pessoas que eu amo e respeito.
Que bom que eu pude quebrar o pé e fazer parte deste universo do bem.
Nada como tornar-me um deles para entender melhor as coisas…
20 de Fevereiro de 2010 às 17:06
Claudia Cotes
Quem me conhece sabe o quanto que eu luto por uma mídia para todos. Fico surpresa em ver o quanto as pessoas são desinformadas sobre o mundo das pessoas surdas, cegas, enfim, com algum tipo de deficiência.
São uma parcela da população que consome bens, trabalham, estudam, gastam, e não se vêem respeitados no seu direito mínimo: o de receber informação acessível!
A televisão brasileira está cada vez mais excludente. Comerciais são feitos com músicas, os repórteres dos telejornais falam e não dizem seus próprios nomes, e ainda os apresentadores mandam anotar na legenda que aparece na tela. E as pessoas cegas? Vão anotar como? Azar dos comerciantes que fazem suas propagandas somente com música. As pessoas cegas nem saberão do que se trata. E os surdos que só se comunicam em Libras, então?
Fico muito preocupada…
Será que eles sabem quantos políticos estão colocando dinheiro nas meias?
Mas os surdos também são eleitores!!!
E quem faz mídia precisa INFORMAR.
São 6 milhões de brasileiros surdos. Este número é muito maior do que a população de alguns países da Europa.
Quantos sites têm vídeos com Libras?
Ah! Sim. O Telelibras e pouquíssimos parceiros.
La-men-tá-vel.
Quando é que os jornalistas deste país irão fazer uma Mídia para TODOS?
Não basta escrever bem, saber contar bem uma história. Desculpem-me. Isto é pouco para os dias de hoje.
Temos que ser profissionais MULTI. Isto significa ter uma informação e transformá-la, em diferentes formatos.
E COMPARTILHAR…
27 de Janeiro de 2010 às 15:35
Claudia Cotes
Minha experiência como cadeirante, depois que eu quebrei o pé, tem sido enriquecedora.
Uma coisa é você achar que a pessoa com deficiência precisa de ajuda e tentar ser solidário, outra coisa bem diferente é estar no lugar dela, ou ser uma delas.
Veja as lições que eu aprendi:
1) não preciso de piedade!
Já cansei dos olhares como “coitadinha dela”. Quando as pessoas vão achar normal ter cadeirantes entre elas?
2) há um buraco depois de cada rampa.
Pelas ruas da Vila Mariana, em SP, é assim. A roda da cadeira enrosca nos buracos e outro dia, quae caí no chão. Mas sei que há cidades em que as rampas não existem…
3) como conduzir um cadeirante?
Eu já tinha uma ligeira noção, mas vi que as pessoas não sabem MESMO! Preciso fazer vídeos sobre isso.
4) há limites
Entendo perfeitamente que nem tudo eu consigo fazer. O meu tempo mudou. Preciso ter calma, ir devagar, planejar para sair de casa, pensar em como vou chegar até o banheiro, e que meu corpo cansa com facilidade.
5) existe solidariedade
Tanta gente quer ajudar que às vezes me sinto como um bebê de colo. É engraçado…
Mas VIVA a bondade humana!
6) perdi a vez
Porque estou na cadeira de rodas, sou pouco solicitada para os trabalhos de antes. Fui fazer uma entrevista para um novo trabalho, e acho que não vai rolar por causa da minha condição. As pessoas me perguntam se eu ainda trabalho. E eu respondo que eu só quebrei o pé. A cabeça continua boa!
7) precisamos evoluir
Também fiquei indignada com a falta de consciência sobre o outro, de algumas pessoas. Anteontem eu estava em um curso. Ao final da aula, chovia muito. Eu estava com muletas, pedi um táxi e fui caminhando lentamente na chuva. Uma “espertinha” correu na minha frente, entrou no táxi e foi embora. E eu? Fiquei tomando chuva, sem fala e sem me conformar em COMO uma pessoa pode viver em sociedade SEM pensar nos outros?
8) o mundo é animal
Nada mais de ter pensamentos de Polyana sobre a vida. Se as pessoas fossem totalmente boas, pensariam em todos e o mundo seria acessível. E não é esta a realidade. Temos que TRABALHAR!
9) tal mãe, tal filhos
De tudo isso, vem a melhor das lições. A de ter dois filhos que empurram a mãe na cadeira de rodas e que ficam indignados com muitas situações. Com certeza, eles farão um mundo melhor para os meus netos.
21 de Janeiro de 2010 às 10:32
Claudia Cotes
Sei que andei pra lá de sumida.
Desculpem-me.
Eu precisava descansar…
Fiquei em Ubatuba (Ubachuva) no Ano Novo e pensei muito no crescimento da Vez da Voz na virada do ano.
Desejei novas experiências, dessas que mexem com tudo.
E divido com vcs, uma experiência boa que o Universo me faz viver.
Como todos sabem, eu ADORO andar de bike na praia!
Anteontem, eu estava voltando de um passeio quando de repente fui ATROPELADA por uma ciclista desatenta.
Ela estava correndo na bike dela e olhando pra cima. Batemos de frente. Nem deu tempo de eu gritar.
Minha bike ficou bem quebrada… coitadinha.
E eu…
Voltei ontem pra SP depois de QUATORZE horas no trânsito e fui direto pro hospital.
Conclusão: pé esquerdo quebrado, com gesso, um mês de repouso, com uso de muletas e cadeira de rodas.
Qualquer um poderia ficar triste no meu lugar, mas confesso que estou gostando de viver esta experiência.
Pensei: É AGORA!
Vou poder alugar muletas e uma cadeira de rodas. É a vez de eu sair pelas ruas, metrô e sentir as dificuldades na pele…
Hoje começo este registro.
Lição 1:
Já não consegui ser tão agitada quanto antes. O tempo mudou. Tenho que aprender a ter calma, a sentar, bem devagar…
Pra que tanta correria, não é mesmo?
Lição 2:
Minha sogra veio fazer um almocinho bom. Lavou a louça, cuidou da casa.
Sempre é bom termos pessoas que dividem a nossa dor e nos conforta. Cada brasileiro deveria ficar deficiente por um tempo.
Bom, pensando bem… eta povo deficiente!
A maior delas é a falta de visão sobre o fato de que o mundo precisa ser para todos.
Lição 3:
Choveu. Não saio de casa.
Como uma pessoa cadeirante vai andar por ruas alagadas?
E se houver um buraco embaixo da poça d´àgua e eu estiver de muletas?
O problema de muitos passa a ser problema meu.
Lição 4:
Grudei na Internet.
Não é à toa que pessoas com deficiência amam um computador.
Nem existem limites para a expressão dos sentimentos, a rede de amigos está sempre lá.
Na web, somos todos iguais. O que importa são as ideias.
Amanhã saio pras ruas…
4 de Janeiro de 2010 às 16:28
Claudia Cotes
Olho para todos os lados, olho pela janela, calculo as distâncias, saboreio as cores, admiro as luzes coloridas, luzes no céu, luzes refletidas na água então, como que tomado por uma adorável e congênita loucura Ismaliana (com a licença do neologismo), delicio-me… Decifro sinais de longe, atravesso a rua correndo; sou capaz de dialogar sem nada falar, apenas faço a conexão: olhos nos olhos; Repouso os olhos na beleza do mundo, na beleza das artes, das pinturas, das danças, das paisagens; sou capaz de, somente pela visão, envolver-me em situações, em paixões, entrar em mundos de outrem, criados e descritos em telas, em livros e no que quer que possa ser lido, visto, contemplado. Meus olhos me levam ao mundo, seja qual mundo for… Meus olhos, assim como tantos, dois pontos de luz e expressão tão brilhantes e atraentes, tão citados pelos poetas, são tão admirados pela cor, pelo formato, pelo que dizem, que quase deixam passar despercebido o seu real valor: enxergar. Eu mesmo nunca tinha parado para refletir sobre esta minha dádiva: a visão, já que é tão corriqueiro olhar e ver as pessoas, os rostos, os céus, os caminhos, o verde, os espetáculos da natureza.
Bom, de certo que para muitas pessoas o simples ato de enxergar não é tão comum assim. Não, e nem ouso aqui entrar no igualmente complexo e delicado sentido mais profundo do verbo, não falo daqueles que não querem enxergar, mas dos que não podem. Para uns a visão representa uma vaga lembrança, para outros, um grande sonho até. E foi numa noite quente e animada que iniciaram-se minhas reflexões sobre este sentido e sobre a falta dele. A noite, agradabilíssima, corria mais ou menos assim: Uma roda humana, acomodada em cadeiras e no chão, desenhava o limite do espaço das dançarinas. Entre véus esvoaçantes, saias coloridas e cabelos longos, a beleza feminina se exaltava na sensualidade da dança árabe. Os intensos sabores das comidas típicas, candelabros pelo recinto, a alegria, as palmas durante a dança e a interação da roda com as bailarinas, tudo compunha um ambiente encantador. E a música, hora lamuriosa, hora muito enérgica, sempre envolvente, era o que mais marcava aquela festa para ele, que, sentado à roda, apenas presenciava a dança da irmã. Ela, por vergonha talvez, nunca dançara para o irmão quando ele podia enxergar; e depois ficou tarde demais…
Como todos ali, ele batia palmas no ritmo da percussão empolgante, e o fazia com mais intensidade e alegria quando sentia o perfume familiar anunciando a aproximação da irmã, que, dançando e girando gloriosa, percorria todo o grupo. Apesar de desejar, ele não ousava gritar o nome dela quando pensava tê-la dançando por perto. Talvez não confiasse em seus outros sentidos, talvez não estivesse certo de que aquele era o perfume dela; diariamente, estava acostumado a identificá-la pela voz, e ali, dançando, o único som que ela gerava era o das contas de sua veste de dança, que se agitavam cúmplices de seus movimentos.
O desenho colorido dos véus no ar, os floreios com as mãos e os corpos femininos descendo suavemente ao chão, tudo aquilo mexia comigo e encantava todos os olhos presentes; porém, atingia com sutil diferença os olhares masculinos. Aquelas imagens me invadiam os olhos, percorriam-me os labirintos orgânicos e tocavam o íntimo de meu ser físico e instintivo que habitava meu frágil corpo são e jovem, onde o desejo natural e utópico, brutamente decodificado era: “tê-las todas para mim!”
Eu, que sempre procurava promover o encontro do meu amigo com aquilo que ele não podia ver, tentava tornar acessível a ele o que seus olhos não lhe mostravam, sentia-me tão impotente naquele momento… Nem que eu descrevesse a ele, com minhas mais poéticas e bem escolhidas palavras, os movimentos, as cores e os sorrisos daquela dança, jamais seria a mesma coisa. Sentia-me frustrado, uma forte angústia embrulhava-me o coração. Então a velha pergunta caía pesada sobre meus ombros e me assombrava: Por que o mundo é assim? Por que eu podia ver a luz flamejante do fogo iluminando a pele das bailarinas, podia ver os ventres pulsantes, os movimentos precisos dos quadris e os tremores por todo o corpo, o serpenteio dos braços e troncos, a pureza, o efeito, o encanto e o sentido de cada movimento e ele não? Por que a mim, nem tanto pior e, muito menos, melhor que meu amigo, era dado o direito, a permissão daquela cena e a ele não?
Naquele desenrolar de meus pensamentos, eu quase saí de mim buscando compreender tal situação. Já não batia mais palmas com todo mundo e contemplava a circunstância, desejando invadir sua razão e seu espírito, assim como o de meu amigo, para tentar, por um segundo que fosse, “ver” com seus olhos e entender como seria estar ali, diante de um espetáculo de luz, cor e movimento, sem visão. Como será que ele se sentia? Será que criava imagens na mente, de acordo com sua percepção que se edificava a partir do que podia captar pelos outros sentidos, tentando adivinhar a cena? Mas não parecia triste. Estava atento à música e sorria ao perceber a aproximação da irmã.
Dividido então entre lamentos e consolações, eu me policiava para não julgar aquela como a pior injustiça do mundo. Sei que tudo tem uma razão de ser, mas a cena era linda demais! Por que diabos ele não podia compartilhá-la comigo? Eu me indignava. E por que, eu insisto, o destino, com suas misteriosas crueldades, tirara dele a oportunidade de presenciar visualmente cenas como aquela? É bem verdade que de certas cenas do mundo seus olhos não faziam mais que poupá-lo, mas aquela cena ali, simples e real, poderia compensar qualquer dilacerante cena de guerra. Não queria ter pena dele, ou qualquer sentimento de parentesco com este; era apenas meu costumeiro desejo de enriquecer minhas experiências e meus questionamentos tentando me colocar no lugar de outro ser, encarnar-me em outros corpos, em outras mentes, em outros universos.
Dona da mesma sensibilidade, uma das dançarinas, certamente pensando como eu, fez o que eu não podia fazer: aproximou-se dele, serena, e o surpreendeu pegando-lhe as mãos. Cruzando as pernas e mantendo o tronco solenemente ereto, ela se colocou ao chão, exatamente à frente dele, pousou as mãos jovens do menino em seus ombros e os sacudia graciosa, inclinando-se alternadamente para frente e para trás. Depois levou uma daquelas mãos para a ponta de sua mão esquerda e dali iniciou uma suave e crescente ondulação, que se intensificava descendo pelo braço e conduzindo a mão de meu amigo de volta ao ombro. Num susto, aquela onda ritmada e agora grande passou de um ombro ao outro, evoluiu pelo braço direito, manifestou-se mágica e perfeitamente na mão da bailarina e parou em sua ponta, a onda aconchegante que carregava sempre sobre si a mão do rapaz. Sob a reação encantada e sorridente dele, ela se ergueu e permitiu-lhe as mãos em seu ventre nu, para que ele conhecesse o impressionante e vivo pulsar em ondas da dança árabe. Dali, ela desceu as duas mãos atentas para seus quadris, cobertos de contas, miçangas e paetês, e mostrou a ele os deliciosos movimentos que desenhavam oitos, entrecortados pelos pequenos trancos e batidas firmes que, tal o sincronismo e as variadas intensidades, pareciam ser o próprio derbak, um tambor típico da percussão árabe. E depois de levar a dança até ele, levou-o para dentro da dança: com muito cuidado e carinho, sem parar de dançar, ela o conduziu para o centro da roda e o acomodou numa almofada no chão. Ali, enquanto ela dançava à sua volta, mantendo sempre suas mãos em contato com as mãos ou com os braços dele, a fazê-lo sentir na pele o toque suave dos floreios, das pequenas ondas e dos bailados circulares que trazia nelas, todas as outras dançarinas, compartilhando da luminosidade daquela cena, puseram-se a dançar também rodeando o garoto e a roçar-lhe o corpo e o rosto com os véus e os longos cabelos perfumados, como se jogassem nele um feitiço.
Enfeitiçado… Era isso. Naquela noite foi criado um feitiço, lógico e cheio de amor, para fazê-lo enxergar o que, descompromissada e superficialmente, qualquer um julgaria impossível. Mãos criativas e amorosas, mãos, dedos, braços, ombros, pele, calor, ventre, quadris, fragrâncias, toques, texturas, movimentos e sensações, tudo aquilo transformou a vaga idéia que ele, provavelmente, fazia da cena, baseando-se em sons e lembranças, em um espetáculo muito particular, concretizando a dança para meu amigo; um espetáculo que, de tão próximo e sensacional, no sentido mais puro do adjetivo, poria inveja em qualquer platéia, confortavelmente acomodada em suas poltronas distantes do palco, por mais intimista que fosse o teatro em questão… E eu, vendo a grandeza da cena de longe, imóvel, com minhas mãos cegas e vazias, comecei a repensar minha frustração, minha sensação de impotência, minha indignação e, de repente, quando vi, sentia aflorar em mim a pergunta: Qual seria mesmo a pior injustiça do mundo? De onde eu estava, a dança se resumia em imagens coloridas e um discreto ventinho de vez em quando durante um giro esvoaçante. Mais do que a reconfortante certeza de que sempre há possibilidades de adaptação para atender às diferenças e de que meus olhos são minha grande dádiva, mas não maior que meus outros órgãos dos sentidos, o que me impressionava era minha repentina mudança de posição: o candidato a herói protetor dos fracos e oprimidos de outrora sentia-se agora o mais injustiçado dos homens, e sem ao menos o direito de recorrer ao poder da lei. Por que ele podia “ver” de perto e sentir na pele, literalmente, aquela dança e eu tinha de me contentar em ver tudo de longe? Eu e meus eternos porquês…
Ao fim daquela música, a linda e familiar bailarina, sempre calada e sorridente, coroou o momento mágico abaixando-se novamente à frente dele e beijando-lhe a bochecha. Agora ele tinha certeza, não só pelo perfume, mas também pelo toque, pelo beijo, pelos cabelos, ele sabia quem era; e, descendo as mãos pelos ombros e braços dela, reencontrou-lhe as mãos e as beijou contente.
Sara Bentes
8 de Dezembro de 2009 às 14:59
Claudia Cotes
Este final de semana, fiquei sabendo que a minha irmã Paloma perguntou pra filha Isabela, de 3 anos, o que ela queria ganhar de Natal.
A resposta foi:
- Um pirulito e uma bala!!!
Demos risada juntas e me perguntei:
- Por que não aprendemos o que é ESSENCIAL na vida?
- Por que precisamos de sapatos e mais sapatos, roupas e mais roupas, bolsas, perfumes, jóias, marcas, coisas materiais que nos fazem ser mais do que os outros?
Nesta época de Natal, tenho até preguiça de ir ao shopping…
No dia 05/12, a ONG Vez da Voz esteve reunida em um dia inteiro de treinamento.
Fizemos uma dinâmica onde cada um de nós tinha uma folha sulfite grudada nas costas e uma caneta colorida na mão. Tínhamos que dançar com alguém do grupo, com o intuito de SENTIR a pessoa. Quando a música parasse, tínhamos que escrever na folha sulfite, uma QUALIDADE da pessoa. E assim fizemos por muitas vezes, com pessoas diferentes.
Confesso que no silêncio da minha Alma, há muito tempo eu não sentia emoção tamanha…
Foi uma doação humana incrível!
Poder captar o que a pessoa é, e resumir em UMA palavra, não foi nada fácil.
Quando a atividade acabou, sentamos no chão, em roda, e tivemos que ler em voz alta para todos, cada palavra, com o termo EU SOU… antes.
Eu sou companheiro;
Eu sou atencioso;
Eu sou surpreendente…
Nem preciso dizer que foi uma choradeira só. Quase que o grupo ficou sem voz…
Aquele papel representava o presente que cada um tinha dado ao outro. E toda a energia do grupo ficou GIGANTE…
Descobri que aquilo sim, é Natal.
E percebi o quanto eu deixo de olhar e sentir as pessoas ao meu redor, na correria do dia-a-dia.
O que alimenta a nossa alma não são as coisas que compramos, mas as que não podem ser adquiridas com dinheiro, como os valores de vida, o caráter, a perseverança, o sonho.
Então, neste Natal eu quero ganhar:
- muitos olhares, beijos, abraços demoraaaaaados, mãos dadas, raios de sol no rosto, chuva no cabelo, gargalhada de criança, carinho de mão de um Down, canto de uma pessoa cega, e descalça, e também sentada no chão, vou admirar a Isa, minha sobrinha, se lambuzar com o pirulito e com a bala de Natal…
7 de Dezembro de 2009 às 09:04
Claudia Cotes
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