Arquivo de 21 de Janeiro de 2010

Dia-a-dia

Minha experiência como cadeirante, depois que eu quebrei o pé, tem sido enriquecedora.
Uma coisa é você achar que a pessoa com deficiência precisa de ajuda e tentar ser solidário, outra coisa bem diferente é estar no lugar dela, ou ser uma delas.
Veja as lições que eu aprendi:
1) não preciso de piedade!
Já cansei dos olhares como “coitadinha dela”. Quando as pessoas vão achar normal ter cadeirantes entre elas?
2) há um buraco depois de cada rampa.
Pelas ruas da Vila Mariana, em SP, é assim. A roda da cadeira enrosca nos buracos e outro dia, quae caí no chão. Mas sei que há cidades em que as rampas não existem…
3) como conduzir um cadeirante?
Eu já tinha uma ligeira noção, mas vi que as pessoas não sabem MESMO! Preciso fazer vídeos sobre isso.
4) há limites
Entendo perfeitamente que nem tudo eu consigo fazer. O meu tempo mudou. Preciso ter calma, ir devagar, planejar para sair de casa, pensar em como vou chegar até o banheiro, e que meu corpo cansa com facilidade.
5) existe solidariedade
Tanta gente quer ajudar que às vezes me sinto como um bebê de colo. É engraçado…
Mas VIVA a bondade humana!
6) perdi a vez
Porque estou na cadeira de rodas, sou pouco solicitada para os trabalhos de antes. Fui fazer uma entrevista para um novo trabalho, e acho que não vai rolar por causa da minha condição. As pessoas me perguntam se eu ainda trabalho. E eu respondo que eu só quebrei o pé. A cabeça continua boa!
7) precisamos evoluir
Também fiquei indignada com a falta de consciência sobre o outro, de algumas pessoas. Anteontem eu estava em um curso. Ao final da aula, chovia muito. Eu estava com muletas, pedi um táxi e fui caminhando lentamente na chuva. Uma “espertinha” correu na minha frente, entrou no táxi e foi embora. E eu? Fiquei tomando chuva, sem fala e sem me conformar em COMO uma pessoa pode viver em sociedade SEM pensar nos outros?
8) o mundo é animal
Nada mais de ter pensamentos de Polyana sobre a vida. Se as pessoas fossem totalmente boas, pensariam em todos e o mundo seria acessível. E não é esta a realidade. Temos que TRABALHAR!
9) tal mãe, tal filhos
De tudo isso, vem a melhor das lições. A de ter dois filhos que empurram a mãe na cadeira de rodas e que ficam indignados com muitas situações. Com certeza, eles farão um mundo melhor para os meus netos.

1 comentário 21 de Janeiro de 2010 às 10:32 Claudia Cotes


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