E quem verá a pior injustiça?
Olho para todos os lados, olho pela janela, calculo as distâncias, saboreio as cores, admiro as luzes coloridas, luzes no céu, luzes refletidas na água então, como que tomado por uma adorável e congênita loucura Ismaliana (com a licença do neologismo), delicio-me… Decifro sinais de longe, atravesso a rua correndo; sou capaz de dialogar sem nada falar, apenas faço a conexão: olhos nos olhos; Repouso os olhos na beleza do mundo, na beleza das artes, das pinturas, das danças, das paisagens; sou capaz de, somente pela visão, envolver-me em situações, em paixões, entrar em mundos de outrem, criados e descritos em telas, em livros e no que quer que possa ser lido, visto, contemplado. Meus olhos me levam ao mundo, seja qual mundo for… Meus olhos, assim como tantos, dois pontos de luz e expressão tão brilhantes e atraentes, tão citados pelos poetas, são tão admirados pela cor, pelo formato, pelo que dizem, que quase deixam passar despercebido o seu real valor: enxergar. Eu mesmo nunca tinha parado para refletir sobre esta minha dádiva: a visão, já que é tão corriqueiro olhar e ver as pessoas, os rostos, os céus, os caminhos, o verde, os espetáculos da natureza.
Bom, de certo que para muitas pessoas o simples ato de enxergar não é tão comum assim. Não, e nem ouso aqui entrar no igualmente complexo e delicado sentido mais profundo do verbo, não falo daqueles que não querem enxergar, mas dos que não podem. Para uns a visão representa uma vaga lembrança, para outros, um grande sonho até. E foi numa noite quente e animada que iniciaram-se minhas reflexões sobre este sentido e sobre a falta dele. A noite, agradabilíssima, corria mais ou menos assim: Uma roda humana, acomodada em cadeiras e no chão, desenhava o limite do espaço das dançarinas. Entre véus esvoaçantes, saias coloridas e cabelos longos, a beleza feminina se exaltava na sensualidade da dança árabe. Os intensos sabores das comidas típicas, candelabros pelo recinto, a alegria, as palmas durante a dança e a interação da roda com as bailarinas, tudo compunha um ambiente encantador. E a música, hora lamuriosa, hora muito enérgica, sempre envolvente, era o que mais marcava aquela festa para ele, que, sentado à roda, apenas presenciava a dança da irmã. Ela, por vergonha talvez, nunca dançara para o irmão quando ele podia enxergar; e depois ficou tarde demais…
Como todos ali, ele batia palmas no ritmo da percussão empolgante, e o fazia com mais intensidade e alegria quando sentia o perfume familiar anunciando a aproximação da irmã, que, dançando e girando gloriosa, percorria todo o grupo. Apesar de desejar, ele não ousava gritar o nome dela quando pensava tê-la dançando por perto. Talvez não confiasse em seus outros sentidos, talvez não estivesse certo de que aquele era o perfume dela; diariamente, estava acostumado a identificá-la pela voz, e ali, dançando, o único som que ela gerava era o das contas de sua veste de dança, que se agitavam cúmplices de seus movimentos.
O desenho colorido dos véus no ar, os floreios com as mãos e os corpos femininos descendo suavemente ao chão, tudo aquilo mexia comigo e encantava todos os olhos presentes; porém, atingia com sutil diferença os olhares masculinos. Aquelas imagens me invadiam os olhos, percorriam-me os labirintos orgânicos e tocavam o íntimo de meu ser físico e instintivo que habitava meu frágil corpo são e jovem, onde o desejo natural e utópico, brutamente decodificado era: “tê-las todas para mim!”
Eu, que sempre procurava promover o encontro do meu amigo com aquilo que ele não podia ver, tentava tornar acessível a ele o que seus olhos não lhe mostravam, sentia-me tão impotente naquele momento… Nem que eu descrevesse a ele, com minhas mais poéticas e bem escolhidas palavras, os movimentos, as cores e os sorrisos daquela dança, jamais seria a mesma coisa. Sentia-me frustrado, uma forte angústia embrulhava-me o coração. Então a velha pergunta caía pesada sobre meus ombros e me assombrava: Por que o mundo é assim? Por que eu podia ver a luz flamejante do fogo iluminando a pele das bailarinas, podia ver os ventres pulsantes, os movimentos precisos dos quadris e os tremores por todo o corpo, o serpenteio dos braços e troncos, a pureza, o efeito, o encanto e o sentido de cada movimento e ele não? Por que a mim, nem tanto pior e, muito menos, melhor que meu amigo, era dado o direito, a permissão daquela cena e a ele não?
Naquele desenrolar de meus pensamentos, eu quase saí de mim buscando compreender tal situação. Já não batia mais palmas com todo mundo e contemplava a circunstância, desejando invadir sua razão e seu espírito, assim como o de meu amigo, para tentar, por um segundo que fosse, “ver” com seus olhos e entender como seria estar ali, diante de um espetáculo de luz, cor e movimento, sem visão. Como será que ele se sentia? Será que criava imagens na mente, de acordo com sua percepção que se edificava a partir do que podia captar pelos outros sentidos, tentando adivinhar a cena? Mas não parecia triste. Estava atento à música e sorria ao perceber a aproximação da irmã.
Dividido então entre lamentos e consolações, eu me policiava para não julgar aquela como a pior injustiça do mundo. Sei que tudo tem uma razão de ser, mas a cena era linda demais! Por que diabos ele não podia compartilhá-la comigo? Eu me indignava. E por que, eu insisto, o destino, com suas misteriosas crueldades, tirara dele a oportunidade de presenciar visualmente cenas como aquela? É bem verdade que de certas cenas do mundo seus olhos não faziam mais que poupá-lo, mas aquela cena ali, simples e real, poderia compensar qualquer dilacerante cena de guerra. Não queria ter pena dele, ou qualquer sentimento de parentesco com este; era apenas meu costumeiro desejo de enriquecer minhas experiências e meus questionamentos tentando me colocar no lugar de outro ser, encarnar-me em outros corpos, em outras mentes, em outros universos.
Dona da mesma sensibilidade, uma das dançarinas, certamente pensando como eu, fez o que eu não podia fazer: aproximou-se dele, serena, e o surpreendeu pegando-lhe as mãos. Cruzando as pernas e mantendo o tronco solenemente ereto, ela se colocou ao chão, exatamente à frente dele, pousou as mãos jovens do menino em seus ombros e os sacudia graciosa, inclinando-se alternadamente para frente e para trás. Depois levou uma daquelas mãos para a ponta de sua mão esquerda e dali iniciou uma suave e crescente ondulação, que se intensificava descendo pelo braço e conduzindo a mão de meu amigo de volta ao ombro. Num susto, aquela onda ritmada e agora grande passou de um ombro ao outro, evoluiu pelo braço direito, manifestou-se mágica e perfeitamente na mão da bailarina e parou em sua ponta, a onda aconchegante que carregava sempre sobre si a mão do rapaz. Sob a reação encantada e sorridente dele, ela se ergueu e permitiu-lhe as mãos em seu ventre nu, para que ele conhecesse o impressionante e vivo pulsar em ondas da dança árabe. Dali, ela desceu as duas mãos atentas para seus quadris, cobertos de contas, miçangas e paetês, e mostrou a ele os deliciosos movimentos que desenhavam oitos, entrecortados pelos pequenos trancos e batidas firmes que, tal o sincronismo e as variadas intensidades, pareciam ser o próprio derbak, um tambor típico da percussão árabe. E depois de levar a dança até ele, levou-o para dentro da dança: com muito cuidado e carinho, sem parar de dançar, ela o conduziu para o centro da roda e o acomodou numa almofada no chão. Ali, enquanto ela dançava à sua volta, mantendo sempre suas mãos em contato com as mãos ou com os braços dele, a fazê-lo sentir na pele o toque suave dos floreios, das pequenas ondas e dos bailados circulares que trazia nelas, todas as outras dançarinas, compartilhando da luminosidade daquela cena, puseram-se a dançar também rodeando o garoto e a roçar-lhe o corpo e o rosto com os véus e os longos cabelos perfumados, como se jogassem nele um feitiço.
Enfeitiçado… Era isso. Naquela noite foi criado um feitiço, lógico e cheio de amor, para fazê-lo enxergar o que, descompromissada e superficialmente, qualquer um julgaria impossível. Mãos criativas e amorosas, mãos, dedos, braços, ombros, pele, calor, ventre, quadris, fragrâncias, toques, texturas, movimentos e sensações, tudo aquilo transformou a vaga idéia que ele, provavelmente, fazia da cena, baseando-se em sons e lembranças, em um espetáculo muito particular, concretizando a dança para meu amigo; um espetáculo que, de tão próximo e sensacional, no sentido mais puro do adjetivo, poria inveja em qualquer platéia, confortavelmente acomodada em suas poltronas distantes do palco, por mais intimista que fosse o teatro em questão… E eu, vendo a grandeza da cena de longe, imóvel, com minhas mãos cegas e vazias, comecei a repensar minha frustração, minha sensação de impotência, minha indignação e, de repente, quando vi, sentia aflorar em mim a pergunta: Qual seria mesmo a pior injustiça do mundo? De onde eu estava, a dança se resumia em imagens coloridas e um discreto ventinho de vez em quando durante um giro esvoaçante. Mais do que a reconfortante certeza de que sempre há possibilidades de adaptação para atender às diferenças e de que meus olhos são minha grande dádiva, mas não maior que meus outros órgãos dos sentidos, o que me impressionava era minha repentina mudança de posição: o candidato a herói protetor dos fracos e oprimidos de outrora sentia-se agora o mais injustiçado dos homens, e sem ao menos o direito de recorrer ao poder da lei. Por que ele podia “ver” de perto e sentir na pele, literalmente, aquela dança e eu tinha de me contentar em ver tudo de longe? Eu e meus eternos porquês…
Ao fim daquela música, a linda e familiar bailarina, sempre calada e sorridente, coroou o momento mágico abaixando-se novamente à frente dele e beijando-lhe a bochecha. Agora ele tinha certeza, não só pelo perfume, mas também pelo toque, pelo beijo, pelos cabelos, ele sabia quem era; e, descendo as mãos pelos ombros e braços dela, reencontrou-lhe as mãos e as beijou contente.
Sara Bentes
Adicionar comentário 8 de Dezembro de 2009 às 14:59 Claudia Cotes